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Incentivo à leitura na Educação Infantil: como envolver a família

Atualizado: 19 de fev. de 2021



Confira o que a escola pode fazer para incentivar essa parceria e entenda a proposta do programa Conta Pra Mim, dedicado aos pais e responsáveis


A pedagoga Ana Cláudia Soares colhe há oito anos os frutos de uma árvore que plantou na sala de leitura da EM Dom João VI, na zona norte do Rio de Janeiro. O caule é feito de tecido trançado, as folhas de papel craft com sulcos pintados de vermelho. Nos galhos, pendem poemas dos mais variados autores: de alunos, de uma inspetora, de um secretário escolar. Foi nesse “pé de poesia” cultivado por Ana Cláudia que a paixão pela leitura e pela escrita germinou dentro e fora dos muros da escola, próxima do Complexo do Alemão e da Maré.


A sala de leitura comandada pela professora atende a turmas de pré-escola e de Anos Iniciais de Ensino Fundamental. Estimuladas pelo mural interativo idealizado por Ana Claudia, uma das finalistas da edição de 2019 do Prêmio Educador Nota 10, as crianças passaram a declamar poemas nos almoços familiares de domingo. Ao ouvir os filhos improvisando saraus em casa, os pais comentavam: “Nossa, essa escola é forte mesmo”. Não tardou para que alunos e funcionários passassem a frequentar um concurso de poesia organizado pela Prefeitura do Rio.


O “pé de poesia” fincou raízes. Hoje, as crianças têm geladeiras repletas de livros para se servirem no recreio. As menores contam suas histórias em um castelo de papelão para os colegas assistirem. E os responsáveis, além de assistirem a eventuais recitais de poesia em casa, participam das sessões de filmes do Cine Literário, projeto criado por Adailton Medeiros, do cinema Ponto Cine, e desenvolvido por Ana Cláudia.


As iniciativas da professora mostram o que a escola pode fazer pelas famílias e como essa parceria pode ser produtiva. O incentivo à leitura é uma prática realizada de diferentes formas pelas escolas: há o empréstimo de livros aos finais de semana; a “mala viajante”, em que os pequenos levam para casa uma pasta ou sacola com livros e uma atividade para realizar com a participação dos responsáveis; os encontros de leitura, em que as famílias podem participar e fazer uma leitura para a turma; entre outras tantas ações, das mais tradicionais às mais inovadoras (veja mais dicas e práticas no tópico “Como os professores podem incentivar a leitura na Educação Infantil”).


O que a BNCC fala sobre leitura na Educação Infantil?

Os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento da BNCC preveem o incentivo à leitura para bebês na creche. Confira um trecho do documento sobre a prática:

“Desde cedo, a criança manifesta curiosidade com relação à cultura escrita: ao ouvir e acompanhar a leitura de textos, ao observar os muitos textos que circulam no contexto familiar, comunitário e escolar, ela vai construindo sua concepção de língua escrita, reconhecendo diferentes usos sociais da escrita, dos gêneros, suportes e portadores. Na Educação Infantil, a imersão na cultura escrita deve partir do que as crianças conhecem e das curiosidades que deixam transparecer. As experiências com a literatura infantil, propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo. Além disso, o contato com histórias, contos, fábulas, poemas, cordéis etc. propicia a familiaridade com livros, com diferentes gêneros literários, a diferenciação entre ilustrações e escrita, a aprendizagem da direção da escrita e as formas corretas de manipulação de livros. Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua.”

FONTE: BNNC, p. 42


A parceria entre escola e família no incentivo à leitura também é o pilar do Conta Pra Mim, programa do Ministério da Educação (MEC) lançado em 2019 que integra a Política Nacional de Alfabetização (PNA). Entretanto, o programa atende por uma outra lógica: ao invés de estabelecer ações para as instituições de ensino, ele foca no que a família pode fazer pela escola, sugerindo a adoção de práticas chamadas pelo MEC de “literacia familiar”. Até o momento, não há ações concretas do programa destinadas aos professores de Educação Infantil.

Nesta reportagem, você vai entender um pouco melhor as ações previstas pelo MEC para incentivar a leitura pela família, a opinião de especialistas sobre o programa Conta Pra Mim e quais iniciativas podem ser feitas pela escola para encontrar apoio entre pais e responsáveis.


Para saber mais

Literacia é um conceito pouco utilizado entre pesquisadores brasileiros e mais comum à pedagogia norte-americana. Segundo a definição do MEC, literacia familiar é “o conjunto de práticas e experiências relacionadas com a linguagem oral, a leitura e a escrita, que as crianças vivenciam com seus pais ou responsáveis”.

O Conta Pra Mim teve início com a realização de eventos de leitura em shopping centers de nove capitais brasileiras, com a publicação de um guia destinado a pais e responsáveis para adotarem práticas de incentivo à leitura nos lares brasileiros e com a divulgação de vídeos promocionais do Urso Tito, mascote do programa.

De acordo com MEC, "a aprendizagem da linguagem oral, da leitura e da escrita começa em casa, na convivência entre pais e filhos". Entre as práticas sugeridas pelo guia do programa (acesse aqui) estão a interação verbal, com o objetivo de aumentar a quantidade e qualidade dos diálogos com as crianças; a leitura dialogada, que consiste em ler em voz alta para os pequenos; a narração de histórias; os contatos com a escrita; e atividades diversas como jogar, brincar, cantar e tocar instrumentos.


Renda e escolaridade

Apesar de os responsáveis pelo programa no MEC garantirem ter como objetivo alcançar famílias fora do padrão de classe média e classe média-alta, uma das preocupações de especialistas é de que se transfira a responsabilidade pela Educação Infantil das escolas para as famílias. Há o receio de que o Conta Pra Mim não dialogue com a realidade brasileira. No Brasil, quase 30% da população é analfabeta ou analfabeta funcional, segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), e um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Denise Guilherme, idealizadora da empresa A Taba, especializada na curadoria de livros infantis e juvenis, e ex-formadora do programa Ler e Escrever, da Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, ressalta o papel das mulheres como chefes