• Assessoria de Comunicação

Como se sentem as crianças após um ano de isolamento social

Atualizado: Mai 7



Apesar da medida ser eficaz para diminuir a transmissão do vírus, famílias e especialistas relatam seu impacto ao comportamento e à saúde emocional das crianças


Raiva, tristeza e ansiedade entre crianças e adolescentes já são marcas da pandemia de covid-19. Com escolas fechadas, saudade dos avós e aposta constante na imaginação para lidar com a solidão do confinamento, cada vez mais famílias, pesquisadores e profissionais da infância observam mudanças emocionais e comportamentais durante o isolamento social.


“As crianças estão com medo, mais grudadas aos pais e com dificuldades de sair de casa”, afirma o psicólogo do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR), Bruno Mäder.


Apesar do impacto ter sido distinto para cada faixa etária, a carência de socialização acabou sendo um prejuízo para todos, já que é por meio das relações com outras crianças que acontecem muitos aprendizados. Afinal, a experiência de brincar, disputar, gritar e cooperar faz parte do currículo informal da educação infantil de creches e escolas que foram reduzidas ao virtual. “É na escola onde as regras são internalizadas, onde se tem a dimensão do outro e se constrói autonomia”, explica Bruno.


O presidente do Departamento Científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Tadeu Fernando Fernandes, atenta para os efeitos da pandemia sobre a primeira infância, relatando casos de atraso na fala e dificuldades no desfralde, processo estimulado em grande parte pelas professoras nas pré-escolas. Segundo ele, apenas com o fim do isolamento social e com a adaptação ao novo cenário será possível calcular o quanto as situações serão reversíveis e quais suportes serão necessários para lidar com os efeitos das perdas de médio e longo prazo. “Quando a criança está na primeira infância, é complicado pular marcos de desenvolvimento”, afirma.


Impacto da pandemia na saúde mental de jovens e crianças


A piora do cardápio alimentar, o aumento do tempo de tela e o sedentarismo são fatores que atingiram em cheio o corpo e a mente das famílias. Um estudo pioneiro realizado com quase dez mil crianças e jovens, entre 5 e 17 anos, pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), mostrou que metade dos entrevistados não havia praticado nenhuma atividade física nas últimas semanas. Em contrapartida, o tempo médio de uso diário de eletrônicos havia sido de nove horas, fora o período das aulas remotas.


A pesquisa também registrou que 15% dos jovens apresentaram sintomas de ansiedade e 18% de depressão. Os índices chamam atenção de psiquiatras para um possível aumento de transtornos mentais na infância, apesar do estudo não confirmar o diagnóstico.


“Os transtornos mentais têm causa multifatorial, um conjunto de características do indivíduo e do ambiente”, explica a pesquisadora do HCFMUSP e integrante do estudo “Jovens na Pandemia”, Luisa Sugaya.


No país, as condições socioeconômicas apontam para fontes de estresse como desemprego, violência intrafamiliar e segurança alimentar, mas a psiquiatra ainda sugere que psicopatologias parentais, temperamento das crianças, entre outros aspectos contextuais devem ser considerados.


A pesquisa realizada em 2020 por pesquisadores da USP ainda não foi divulgada, mas o Lunetas teve acesso a alguns dados inéditos, como:

  • 57% dos pais afirmaram que a pandemia gerou problemas financeiros moderados ou graves.

  • 23% dos pais afirmaram que a criança apresentou uma qualidade de sono ruim ou muito ruim.

  • 13% dos pais afirmaram que a criança se sentiu frequentemente solitária.

  • (Fonte: Jovens na Pandemia)

Mas essa não é uma condição singular do Brasil. Um relatório publicado em fevereiro por pesquisadores das universidades de Oxford, Leicester e College London, identificou uma oscilação nos sentimentos e comportamentos infantis na Inglaterra, entre março de 2020 e janeiro de 2021, assim como diferenças na intensidade dos sintomas de acordo com idade, renda, presença de irmãos ou arranjo familiar.


“Chamamos de variações longitudinais: pode haver um aumento do estresse nos primeiros meses de adaptação à pandemia, estabilidade e novos períodos de oscilação depois de algum tempo, o que mostra um cenário complexo que atinge famílias de formas distintas”, aponta Luisa.


O documento faz parte do estudo Co-Space, que monitora como as famílias estão enfrentando a pandemia e o que podem fazer para apoiar a saúde mental dos filhos. Em média, os pais relatam maiores dificuldades comportamentais como falta de atenção e inquietude na faixa etária entre 4 e 10 anos. As maiores dificuldades emocionais estavam entre crianças entre 11 e 17 anos, havendo um aumento na gravidade dos sintomas entre dezembro e janeiro. Famílias monoparentais ou com renda anual mais baixa relataram níveis mais elevados de todos os aspectos comportamentais e emocionais.


Qual o papel da Educação Infantil?


A pandemia reforçou a importância das interações oferecidas pela Educação Infantil. Com o afastamento da rede de apoio familiar, creches e escolas seriam um dos principais lugares de suporte às famílias com crianças, especialmente as mais vulneráveis. Embora as salas de aula tenham migrado para o mundo virtual, essa proposta acabou sobrecarregando a relação família-escola e excluindo boa parte da população infantil, caso das crianças que vivem nas periferias urbanas da cidade de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.


Doutorandas em Educação pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas das Infância(s), Formação de Professores(as) e Diversidade Cultural (Gifordic), Fabiana Pessanha e Nayara Macedo, analisam o impacto do bloqueio na região. Elas contam que docentes de unidades municipais, creches e pré-escolas se esforçaram para criar uma “pedagogia da presença”, se vinculando às crianças e suas famílias por meio de grupos de WhatsApp, mas a maioria das 85 creches e escolas públicas da cidade não possuem rede de internet.


Segundo Fabiana e Nayara, as interações remotas que visam a quantificação de carga horária podem acabar assumindo um caráter técnico e superficial, sem conseguir contemplar as especificidades do trabalho da Educação Infantil.


“O movimento de suspensão do cotidiano escolar nos levou a compreender a necessidade de aprender com as famílias, suas diferentes composições, dinâmicas e configurações, escutando seus anseios, expectativas e necessidades”, afirmam. Para elas, com o Brasil registrando os maiores índices de mortes por covid-19, não há possibilidades de reabertura desses espaços enquanto professores não forem considerados prioridade para a vacinação.


Aprendizados

Não seria justo com as crianças dizer que apenas perdas definem suas histórias na pandemia. Muitas famílias, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de passar mais tempo juntas, fortalecendo vínculos.


Julia, de 7 anos, viveu um salto de alfabetização e letramento, surpreendendo a família: em março de 2020, ela reconhecia as letras do alfabeto e, em janeiro de 2021, leu a coleção inteira de tirinhas da Mafalda, com mais de 400 páginas.


Para enfrentar o tédio do bloqueio na periferia de São Paulo, Ísis, de 8 anos, começou a fazer aulas on-line de inglês com o padrinho, descobrindo um novo talento e vencendo a crise de ansiedade.


“Foi surpreendente o que as crianças conseguiram fazer sozinhas, com auxílio das famílias e no ensino remoto. Quando se tem uma situação adversa, o ganho está em lançar mão de recursos sociais, relacionais e cognitivos diferentes”, ressalta o psicólogo Bruno Mäder.


Os custos para as crianças ainda são imprevisíveis.


“Quantos anos tinham seus filhos em 2020 e 2021?”


Para Bruno Mäder, essa será uma pergunta indispensável para análises de histórias de vida e dos impactos da pandemia no desenvolvimento dos jovens.


“Não temos preocupações com prejuízos irreversíveis, mas precisamos entender quais foram os medos da criança e quais recursos foram dados a ela para enfrentar o momento”


No último dia 10 de março, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertou que, após um ano de pandemia, todos os indicadores que medem o desenvolvimento infantil e adolescente recuaram. Em nota, Henrietta Fore, diretora executiva do Unicef, revelou que houve aumento “no número de crianças com fome, isoladas, abusadas, ansiosas, que vivem na pobreza e são forçadas a se casar”.


Nos países em desenvolvimento, as projeções mostram um aumento de 15% na pobreza infantil. Entre seis e sete milhões de crianças a mais podem sofrer de desnutrição. Para 168 milhões de alunos no mundo, as escolas estão fechadas há quase um ano, sendo que um terço deles não tem acesso à educação on-line.


Fonte: Lunetas



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